Manual parcial para mulheres excessivas
Por volta dos 30 anos, eu passei a acordar todos os dias com angústia. Era o peso de sonhos que eu nunca havia perseguido, de versões de mim que nunca saíram do rascunho. Uma vida que eu estava vivendo sem realmente habitar.
Não o tipo dramático de angústia - nada que justificasse uma crise aos olhos de quem me observava de fora. Eu morava na Califórnia, tinha emprego, relacionamento, saúde, celular novo, carro na garagem. Do que eu poderia reclamar?
Trabalhava havia anos em hotelaria, uma profissão que eu gostava - se não amava, ao menos gostava. Mas 60, 70 horas por semana, sem tempo para hobbies, sem espaço para ser outra coisa além do papel que eu desempenhava, foi corroendo aos poucos o que eu sentia pela profissão. A maldade miúda das pessoas, a frieza, o quanto eu doava sem receber nada de volta. A máscara que eu usava há tanto tempo que estava começando a rachar na minha cara.
Aprendi tarde uma coisa simples: não existe distribuição de amor quando você tem tão pouco dele para si. Eu era uma vela apagada tentando manter acesa a luz de todos ao redor. A generosidade que eu achava que tinha era, na verdade, um vazio tentando se provar útil.
Eu vivia dentro do aceitável usando a régua de outras pessoas para medir o que era aceitável para mim. A verdade é que eu comecei minha vida adulta num caminho fora do convencional - não foquei em emprego estável, queria ver o mundo, e consegui isso através do trabalho em navios de cruzeiro. Por anos achei que era pura audácia. Só mais tarde comecei a me perguntar: até que ponto esses sonhos eram meus? Minha mãe fala abertamente sobre os países que nunca conheceu, sobre tudo o que poderia ter sido e não foi. Cresci ouvindo os sonhos não realizados dela como se fossem uma herança. E me pergunto se parte do que eu chamava de vontade própria era, na verdade, uma tentativa de realizar o que ela não conseguiu - de brilhar nos olhos dela antes de brilhar nos meus. Spoiler: não brilhou nos olhos dela. Não brilha até hoje.
Havia também outra camada: eu havia escolhido um caminho não convencional, então precisava que ele parecesse extraordinário. Não podia ser apenas uma mulher que viajava - tinha que ser alguém corajosa, fazendo coisas relevantes. A régua dos outros estava tão internalizada que eu a aplicava até nos meus próprios atos de rebeldia.
Demorei um tempo para entender de onde vinha essa régua. Ela tinha sido instalada cedo, com precisão cirúrgica, por uma mãe que precisava que eu fosse um determinado tamanho - pequena o suficiente para não eclipsar, grande o suficiente para ser um orgulho conveniente. O diagnóstico que chegaria depois - narcisismo materno - tem uma característica particular: você cresce acreditando que a voz que limita seus desejos é a sua própria. Que querer demais é arrogância. Que ocupar espaço demais é egoísmo. Que a barra certa é aquela que os outros consideram razoável.
E você vai replicando o padrão sem perceber. Escolhe namorados que te mantêm pequena, amigos que te mantêm contida porque a tua expansão ameaça o conforto deles. Anda por aí arrastando um grilhão de ferro e achando que é só o peso normal da vida adulta. O eu interior grita sufocado - mas você não escuta, porque confunde a dor com normalidade.
Aos 30, o grilhão virou crise. Dor real, de gente grande. Eu não queria mais existir daquele jeito - presa num cubículo que eu mesma tinha construído para caber nas expectativas dos outros. Não sabia onde eu terminava e onde começavam as versões de mim que inventaram para eu ser. Só sabia que eu sufocava.
Essa é a parte em que eu te vendo um curso. “Desperte sua deusa interior em 30 dias.” Brincadeira. A saída não foi um momento - é um processo que não termina. Remover crenças limitantes, descobrir forças que você não sabia que tinha, integrar as sombras que preferia fingir que não existem. Entender que luz e escuridão moram na mesma pessoa e que o trabalho não é escolher um lado, é integrar os dois. Mas algumas portas abriram no caminho. Exu diria que porta aberta não serve de nada se você não cruza com as próprias pernas. Eu cruzei.
Começou com coaching de carreira. Antes que você revire os olhos: existem profissionais e profissionais. Eu encontrei uma que era mais gente do que método. Mas o que fez a diferença não foi ela - foi que eu queria mudar. Queria muito. A transição foi logo para engenharia de software. Pergunta para a Nicole de 16 anos se ela se imaginava engenheira. Ela riria na sua cara. Aquela Nicole era de humanas - fadada a habilidades bonitas e economicamente inúteis, tinha aceitado isso como verdade absoluta. Na minha cabeça, software era inalcançável. Escolher mesmo assim foi a primeira vez que coragem significou medo de verdade. Apostei todas as fichas em mim mesma sem garantia nenhuma. Eu tinha que conseguir. Tudo antes disso tinha sido talento disfarçado de coragem. Quando tudo o que você faz é o que já sabe fazer, você nunca descobre o que é capaz de aprender. Não é minha grande paixão - mas foi um divisor de águas. Me deu uma vida mais digna e me provou algo que eu não sabia sobre mim mesma: que eu consigo fazer coisas difíceis. O resto - estabilidade, liberdade, tempo para desabrochar em outras direções - veio como consequência. Pela primeira vez em anos, minha mente não estava operando em modo de sobrevivência; eu tinha uma base firme sob os pés. Com a cabeça e as contas pagas no lugar, sobrou espaço para que o silêncio desse lugar a outra urgência: o corpo.
A segunda porta foi o powerlifting. Depois de anos lidando com compulsão alimentar, de travar uma guerra silenciosa com meu próprio corpo, o esporte me ofereceu uma trégua que eu não sabia que precisava. Foi também a primeira vez que me senti genuinamente aceita num espaço - onde um corpo volumoso era celebrado, onde minhas esquisitices eram motivo de riso e não de chacota, onde eu aprendi a ocupar espaço em vez de pedir desculpa por existir. Pela primeira vez, comecei a me perguntar o que meu corpo era capaz de fazer - em vez de quanto ele precisava mudar para ser aceitável aos olhos de quem eu nem sabia nomear. Hoje eu voltei a querer me sentir bonita, a cuidar da aparência. Ser forte não basta - eu quero tudo. Mas o passo inicial - parar de obcecar, soltar o peso da estética como valor moral - foi o que tornou tudo o mais possível.
E então Lakshmi. Quem me conhecia não acreditaria. Eu era ateia convicta, cínica, pessimista à la Schopenhauer. Sem deuses, sem demônios, sem nada que não pudesse ser explicado pela razão. Jung escreveu que a psique tem uma função religiosa - uma necessidade de transcendência que opera quer você acredite ou não. Sim, eu cito Jung agora. Olha o que fizeram comigo. Amputar isso não te torna mais lúcida, te torna incompleta. Sei que é polêmico. Mas acreditar que o objetivo supremo da vida seja produzir, acumular e morrer nunca me trouxe nenhuma joie de vivre. Se a você traz - fico feliz. A mim não trouxe.
Começou com meditação - indicação da minha coach, fala sério, uma potência aquela mulher. Eu estava procurando algo - não sabia o quê - e encontrei mantras dedicados a Lakshmi. Comecei a repeti-los sem acreditar de fato. Por meses, todos os dias, “Om Shreem Mahalakshmiyei Namaha”, 108 vezes, religiosamente. Não houve um momento de conversão, nenhuma epifania. Foi entrando aos poucos, enchendo o peito, trazendo respostas que eu não tinha pedido e perguntas que eu não sabia fazer.
Lakshmi não é uma deusa modesta. Para quem não tem familiaridade com o hinduísmo: ela é a deusa da prosperidade, da beleza, da abundância e do poder. Tem quatro braços - um para o propósito, um para o desejo, um para a riqueza, um para a libertação. Segura os quatro ao mesmo tempo. Não escolhe. Sobre um pedestal de lótus, cercada de ouro. Eu queria ser assim. Não uma deusa mas uma mulher que podia querer tudo.
O que eu não sabia é que essa fome não era nova no meu sangue. Sou neta de uma quimbandeira e mestra do catimbó. A espiritualidade que eu desprezava como fraqueza era herança - enterrada tão fundo que eu achava que não existia.
Jung (ahá!) tem um nome para isso: individuação. Integrar o que você rejeitou de si mesma. Lakshmi foi o caminho palatável - a espiritualidade que uma ateia consegue engolir sem engasgar. Bonita, dourada, segura. Mas minhas origens não são douradas. São da quimbanda - viscerais, de encruzilhada. Minha avó não precisou de Jung. Ela era bruxa - e antes que a Inquisição transformasse a palavra em xingamento, bruxa significava mulher sábia. A que cura, a que separa o sagrado do resto, a que se transforma. Ser bruxa é se tornar o que se precisa ser. De olhar para si e recusar ficar onde está.
Hoje o espaço que Lakshmi abriu é ocupado por Pombagira. Uma grande guardiã, quiçá poderíamos chamá-la de amiga. Eu que jurava que bengala era coisa de fraco. Hoje vejo como privilégio. Quão triste é caminhar sozinho nesse mundo, sem raízes, sem nada maior que você mesmo para se apoiar. A devoção que pratico é uma dádiva que eu quase recusei por orgulho. Hoje sou devota - daqueles que plantaram as sementes do solo onde floresço. E o que recebo vai muito além de proteção. É força de propulsão, coragem e ousadia.
Em algum ponto desse processo, uma pergunta: suponha que você morreu e está no além, e encontra com o seu eu em potencial - aquela pessoa que você poderia ter sido. Quem é essa pessoa diante de você?
A instrução implícita era: responda com honestidade. Eu fui além. Respondi sem modéstia.
A Nicole em potencial que emergiu não era uma versão humilde e equilibrada de mim. Era estonteante. Forte, em forma, com presença que não precisa se anunciar. Uma mulher que não se revela inteira para ninguém - não por medo, mas porque sabe que nem todos merecem acesso. Pequenos pedaços de sua realidade bastam para a maioria. É sua forma de proteção. Uma mulher que quando fala, todos param para escutar - não porque ela grita, mas porque o que ela diz importa. Uma força da natureza que exige respeito e, em algumas situações, provoca medo - o que ela não vê como desvantagem completa.
Ela não se rebaixa. Não barganha o próprio tamanho.
Escrevi isso e fiquei olhando para a frase por um momento. Esperando sentir vergonha. A vergonha não veio.
Mulheres são ensinadas a querer de um jeito específico: com moderação, com ressalvas, com a preocupação constante de não parecer ambiciosa demais, arrogante demais, ingrata demais pelo que já têm. Queremos, mas logo emendamos com “claro que sou grata pelo que tenho.” Ambicionamos, mas adicionamos “não é que eu queira mais do que os outros.” O desejo bruto, sem atenuante, sem pedido de desculpa - esse é um território que aprendemos a evitar.
A régua que minha mãe instalou não era uma anomalia. Era uma versão amplificada de algo que a maioria das mulheres recebe em dose menor: a instrução de não querer demais, de não ocupar espaço demais, de calibrar o tamanho dos próprios sonhos pela tolerância alheia.
Remover o freio não é fácil e tampouco é rápido. Não tem curso de 30 dias para isso - já checamos. É um processo de reconhecer cada vez que a voz que diz isso é demais para você não é sua - e escolher, naquele momento, não alimentá-la. Dia após dia. Às vezes você consegue. Às vezes você perde.
A Nicole que emerge desse processo não é mais fácil de lidar. Pergunte a quem convive comigo. Ela é mais direta, ocupa mais espaço, estabelece limites com menos explicação. Se autointitula, sem ironia: implacável. Não porque seja brutal - mas porque parou de se deixar conter pelo desconforto alheio diante de uma mulher que sabe o que quer.
Ela não chegou a lugar nenhum. Não existe linha de chegada. Existe uma bússola de valores e o compromisso de não ignorá-la. O trabalho não termina. Mas eu venho de uma bisavó Palmira que se separou do marido nos anos 30 - num Brasil que não perdoava mulher que ousasse sair - e casou de novo com um homem 30 anos mais novo. E de dona Elza, minha avó: artística, exuberante, excêntrica e bruxa. A desobediência corre no sangue. Não posso desapontá-las.
Então, não. Não vou pedir desculpas por me tornar o que sou. Elas não pediram. Se é certo ou errado aos olhos dos outros - não sei. Não me cabe saber. O que sei é que, pela primeira vez, me sinto capaz de dar voz ao que realmente quero. Ao que realmente sou. Com todas as contradições. Com todos os excessos.
Uma ovelha negra. Numa linhagem de ovelhas negras.
Não sei se isso inspira ou incomoda.
Provavelmente os dois.