A Única Gentileza da Vida foi a Saída
Tem um capítulo em Capitães da Areia que se chama “Como um trapezista de circo”. De todos os capítulos maravilhosos daquela grande obra, é esse o meu preferido.
Eu li esse capítulo e voltei para o começo. Li de novo. E de novo. Três vezes seguidas, em parte porque não acreditava que um capítulo tão curto pudesse carregar tanta coisa, como é que Amado conseguiu enfiar tudo aquilo em tão poucas palavras?
De todos os meninos do trapiche, era o Sem-Pernas que mais me doía, uma tristeza que não vem com choro, vem com um aperto no peito. Para quem não leu o livro: Sem-Pernas é um menino aleijado, de rua, que vive com o bando de Pedro Bala num trapiche abandonado em Salvador, e eu via a solidão dele em tudo. Ele já foi preso e apanhou, e aquilo grudou nele como marca de ferro, ainda acordava suando, delirando, sozinho no escuro do trapiche enquanto os outros dormiam, porque da prisão ele nunca saiu por inteiro. O ódio dele era feito de falta, falta de toque, falta de nome, falta do mínimo que se dá a um ser humano, e foi ocupando o espaço de tudo que não veio, crescendo onde deveria ter crescido outra coisa, até não sobrar lugar para mais nada.
E quando a polícia o encurrala e a única alternativa é voltar para aquilo tudo, o menino que teve tão poucas escolhas na vida exerce a última que lhe resta, salta do alto de um elevador em Salvador, de frente para o mar, e Amado faz uma coisa que eu não esperava: não escreve aquilo como tragédia, escreve como voo. O menino aleijado, que passou a vida inteira mancando, pesado de dor e de raiva, de repente voa, como um trapezista de circo, rindo dos policiais, rindo do destino, rindo de tudo que tentou mantê-lo preso. Tristeza e alívio cresceram juntos dentro de mim, e a releitura foi uma tentativa de desempate, mas os sentimentos ficaram misturados, engasgados, o desempate nunca veio.
Na semana seguinte, por coincidência, comecei A Vida pela Frente, do Romain Gary. Outro livro, outro continente, outra época. Paris, anos 70, o bairro de Belleville, que não tem nada a ver com a Paris de cartão-postal. Não é bem o que a gente imagina quando pensa em França, como bons vira-latas que somos no Brasil.
E ali, num sexto andar sem elevador, mora Madame Rosa, uma ex-prostituta judia que sobreviveu a Auschwitz, velha, gorda, doente, subindo aquelas escadas carregando um peso que não era só do corpo. Ela cuida de filhos de outras prostitutas, crianças que ninguém quer, que ninguém foi buscar, e uma dessas crianças é Momo, um menino árabe que conta a história como criança pequena conta, sem vírgula, sem fôlego, despejando profundidades como quem não sabe o peso do que está dizendo.
Momo tem teto, tem Rosa, tem comida na mesa, e mesmo assim carrega aquele tipo de inteligência que não se aprende na escola, a capacidade de ler o mundo sem filtro, sem a proteção da inocência que nunca lhe foi oferecida. Os meninos do trapiche dormem ao relento e roubam para comer, Momo dorme num apartamento e tem quem cuide dele, mas quando a infância lhe é roubada não importa onde você dorme, você acaba representando papéis de adulto em corpo de criança, carregando pesos que não são seus, tomando decisões que ninguém deveria lhe pedir.
O que me fez colocar esses dois livros lado a lado não foi planejado, foi que no final de A Vida pela Frente o Sem-Pernas apareceu de novo, nítido, saltando dentro da minha cabeça como se um livro tivesse invadido o outro, e eu entendi que o nó na minha garganta era o mesmo, porque os dois tratam o fim da mesma forma: Sem-Pernas salta, não apenas por desespero, mas por recusa.
Ele olha para tudo que a sociedade preparou para ele, o reformatório, a tortura, a submissão, e faz valer sua vontade suprema: não. É a última coisa que ele pode escolher perante tantas não escolhas. Quando lhe tiram tudo, nome, dignidade, futuro, a única soberania que resta é sobre o próprio fim. Jorge Amado podia ter escrito aquilo como horror, mas escolheu escrever como poesia.
Algo semelhante acontece com Madame Rosa. O maior medo de Rosa não é morrer, mas sim perder a autonomia. Ser entubada num hospital francês, mantida viva por burocracia, transformada em “vegetal na mão da medicina”, palavras dela. Quando o corpo começa a falhar de vez, Momo a leva para o “esconderijo judeu”, um porão no subsolo do prédio onde ela guardava as memórias da guerra, um buraco escuro, úmido, cheio de fantasmas, mas que de alguma forma era seu lugar de conforto, e não nos cabe questionar por quê.
E ali, naquele porão, Momo fica com ela e a cuida, um menino de dez anos cuidando de uma velha que o mundo já deu como morta e que escolheu morrer nos próprios termos, no próprio esconderijo, com a única pessoa que realmente a amou. E é engraçado porque Sem-Pernas salta para o aberto e Rosa desce para um porão, que visto de fora parece o contrário de liberdade, mas a liberdade real aqui nunca foi o espaço, foi a escolha, e para além de qualquer valor cristão sobre a sacralidade da vida, morrer era se livrar dos corpos que já não serviam e dos sofrimentos que ninguém pretendia aliviar.
E o que me pega não é a coragem, é a beleza, o fato de que Amado e Gary, cada um do seu jeito, se recusaram a escrever a miséria como miserável, como se os dois dissessem que essas pessoas que o mundo descartou merecem poesia, merecem uma despedida bonita porque a vida não lhes deu nada de bonito, então a literatura vai dar.
É por essas e outras que eu leio. Ler me expande através de almas artísticas, me torna capaz de ver o mundo com mais beleza e mais sensibilidade. E o sofrimento é inegavelmente parte da vida e precisa de sentido. O psiquiatra Viktor Frankl disse algo sobre os velhos que já não têm possibilidades diante de si mas carregam realidades dentro de si, e eu achei isso bonito. Acho que a literatura faz a mesma coisa com o sofrimento desses personagens, transforma em realidade interior, em coisa que não se desfaz, que fica em quem lê mesmo depois de fechar o livro.