Entre Janus e o Palimpsesto: sobre o luto que acompanha as conquistas

Há quem imagine que toda conquista venha acompanhada apenas de euforia e comemorações. Eu também imaginava, até receber notícias tão aguardadas e sentir, junto com a alegria, uma angústia que me surpreendeu. A experiência tem me ensinado que algumas vitórias também carregam a delicadeza silenciosa de um adeus.

Na segunda-feira, escrevi minha carta de demissão à mão, como manda o figurino, no verso de uma receita médica que era o papel que eu tinha por perto. Minha letra, um verdadeiro garrancho, já tornava o texto quase ilegível. As lágrimas que caíram sem aviso sobre a tinta trataram de completar o serviço. Ali estava o registro do fim de um dos capítulos mais significativos da minha vida profissional.

Foi naquele estado estranho, olhando para o que terminava e para o que começava, que me lembrei de Janus, o deus romano das passagens. Representado com duas faces, ele olha ao mesmo tempo para o passado e para o futuro.

Pouco depois de me mudar para os Estados Unidos, tirei uma foto em Nova York ao lado de uma grande escultura de Janus - uma figura feminina, com um rosto voltado para cada direção. Estranhei, na hora, que ali Janus fosse mulher; a mitologia o conhece como um deus. Mas hoje acho bonito que até os mitos se deixem reescrever por quem os revisita. Na época, foi apenas uma foto, tirada no meio de outra grande mudança. Agora entendo por que ela ficou comigo. Ela traduz um sentimento que talvez toda transição importante carregue: uma parte de nós ainda se despede, enquanto outra já começa, timidamente, a chegar.

Eu ao lado da escultura de Janus em Nova York, pouco depois de me mudar para os Estados Unidos A escultura de Janus em Nova York, pouco depois da minha mudança para os Estados Unidos.

Ao olhar para trás, vejo muito mais do que um emprego. Foi ali que aprendi a confiar em mim mesma, que me descobri capaz de fazer coisas difíceis. Trabalhei ao lado de profissionais que considero do mais alto nível, e foi nesse convívio que uma versão minha que eu não conhecia foi sendo construída. Ao olhar para frente, vejo um sonho antigo finalmente ganhando forma.

Entre esses dois olhares existe um sentimento difícil de explicar. Não é arrependimento, porque continuo acreditando na decisão que tomei. Também não é medo. Talvez seja apenas o luto discreto que acompanha toda transformação importante.

Há pouco tempo, li um livro da Elvira Vigna que trazia a palavra palimpsesto no título. Não conhecia o termo e fui procurar. Na Antiguidade, um palimpsesto era um manuscrito reutilizado: o texto antigo era raspado para dar lugar a uma nova escrita, mas seus vestígios permaneciam ali, discretos, insistindo em existir sob as novas palavras. Passei a desconfiar da ideia de que recomeços nos devolvem a uma página em branco. Somos palimpsestos. Reescrevemo-nos continuamente, mas nenhuma versão de nós desaparece por completo. Os lugares por onde passamos, as pessoas que encontramos e as escolhas que fizemos permanecem sob as novas camadas. Nem sempre visíveis, continuam ajudando a compor quem nos tornamos.

A vida tem me mostrado, situação após situação, que nada é inerentemente bom ou mau. Cada escolha carrega sua própria renúncia. Vez ou outra nos deparamos com encruzilhadas, e não existe caminho que venha só com alegrias ou só com peso. Os dois caminham juntos, sempre. Essa mudança me lembrou disso. A tristeza não estava ali para contradizer a alegria. Estava ali porque a escolha era real, e escolhas reais sempre custam alguma coisa.